Foto: Camila Quirino/Portal ERP
Durante o SuiteConnect São Paulo 2026, a Oracle NetSuite apresentou o NetSuite Next, nova geração da plataforma desenvolvida com inteligência artificial no centro da experiência do usuário. A proposta da companhia é transformar o ERP em um sistema mais autônomo, capaz de executar tarefas, gerar insights e apoiar decisões de forma contextual e conversacional.
A empresa também apresentou novos recursos baseados em IA agêntica, automação de workflows e inteligência conversacional, reforçando uma estratégia voltada à redução de tarefas operacionais e ao aumento da capacidade analítica das empresas.
Em entrevista exclusiva ao Portal ERP, Evan Goldberg e Gustavo Moussalli falaram sobre como enxergam a evolução dos sistemas de gestão, o impacto da IA na operação das empresas, os desafios de adoção na América Latina e o avanço de ERPs mais inteligentes e orientados à execução. Confira:
Portal ERP: Quando a NetSuite nasceu, a nuvem representava uma mudança estrutural no software empresarial. A IA é a próxima grande transformação?
Evan Goldberg:
Quando os sistemas empresariais migraram para a nuvem, eles ficaram mais fáceis de operar porque as empresas deixaram de se preocupar com infraestrutura, sistemas operacionais e bancos de dados. Também ficou mais simples conectar usuários globalmente.
Foi uma grande mudança. Mas acredito que a inteligência artificial provocará uma transformação ainda mais profunda.
A nuvem retirou das empresas a responsabilidade de operar software. A IA vai além disso: ela pode efetivamente executar partes do sistema por você, em segundo plano.
Em vez de realizar tarefas manuais como contabilidade, acompanhamento de entregas ou verificações operacionais dentro do ERP, a IA passa a assumir uma parcela crescente dessas atividades.
Nossa visão é que o NetSuite opere cada vez mais em background. O sistema fará muito mais de forma autônoma, trazendo à superfície apenas aquilo que realmente exige atenção ou ação do usuário.
Isso representa uma mudança ainda maior, porque permite que as empresas foquem menos na operação do sistema e mais no próprio negócio.
Portal ERP: O NetSuite Next introduz inteligência conversacional e workflows com agentes de IA. O que muda na interação entre usuário e ERP?
Evan Goldberg:
Os seres humanos evoluíram para se comunicar por linguagem. Nós não evoluímos para navegar menus, clicar em botões ou fazer drag and drop.
Por isso, acredito que a linguagem natural é a forma como as pessoas devem interagir com sistemas.
As plataformas empresariais estão se tornando cada vez mais conversacionais. Usuários poderão conversar com o sistema no próprio idioma, fazer perguntas e receber orientação diretamente no contexto.
Isso torna o ERP muito mais acessível.
Tradicionalmente, software exige treinamento. Mas, se você pode simplesmente perguntar ao sistema como fazer algo ou o que precisa saber, o aprendizado passa a estar embutido na própria experiência.
É assim que software empresarial deveria funcionar.
Portal ERP: Durante anos, o ERP foi visto principalmente como um system of record. Agora entramos em uma lógica de system of action. Como vocês enxergam essa transição?
Evan Goldberg:
Por muito tempo, os ERPs serviram essencialmente para registrar informações.
Você inseria dados, gerava relatórios, interpretava essas informações e então tomava decisões.
Isso muda com a IA.
Empreendedores e líderes continuam responsáveis pela decisão final — a IA não substitui estratégia nem liderança.
Mas ela elimina muitas tarefas operacionais que antes consumiam tempo e atenção.
Mais importante ainda: ela ajuda a melhorar decisões por meio de insights, recomendações e análise contextual.
E vai além do aconselhamento. A IA também pode executar decisões.
Se uma empresa decide, por exemplo, que todo novo pedido precisa registrar determinada informação, a IA pode ajustar workflows e lógica de sistema para garantir isso automaticamente.
É aí que o ERP deixa de ser apenas um sistema de registro e passa a atuar com automação, ação e agilidade.
As empresas querem reagir rapidamente quando algo muda. A IA torna isso possível.
Portal ERP: Como essa visão se aplica à América Latina e ao Brasil, considerando requisitos locais e complexidade regulatória?
Gustavo Moussalli:
O Next leva em consideração todas as organizações. Portanto, quer você use o Score Apple, o Free Agents ou outras ferramentas que estarão disponíveis no Next, ele sempre estará olhando para o contexto completo da empresa. E contexto significa não apenas as funções centrais, mas também as funções localizadas e as customizações que foram feitas. Levando tudo isso em conta, ele raciocina e traz insights e possíveis alternativas para os obstáculos que encontra. Da mesma forma que funciona globalmente, funcionará localmente.
Acho que o grande desafio são as pessoas e a cultura, certo? Quando disponibilizamos uma ferramenta de IA, seja o ChatGPT ou baseada em nuvem, as pessoas primeiro começam a usá-la da mesma forma que usavam o Google antes. Depois, começam a entender que esse não é o real propósito da ferramenta. E então começam a fazer o upload de planilhas, adicionar dados e pedir insights.
Acho que é a mesma coisa com o ERP. As pessoas começam com um uso mais leve. E quando falamos de um uso mais leve, elas usam o MCP Connector, onde conectam a Nuvem e o ChatGPT para fazer perguntas como a receita comparada com a receita do ano anterior, ou as despesas comparadas com as despesas do ano anterior. Depois, começam a perguntar o porquê: "Por que minhas despesas estão mais altas do que as despesas do ano passado? O que aconteceu para que essas despesas aumentassem?". E então o sistema raciocina por você. Ele começa a fazer o raciocínio por você e te traz os insights e as respostas. É aí que ele começa a agregar valor.
Acho que haverá uma escada de adoção. Começa mais como uma ferramenta de relatórios (reporting), digamos assim, para simplificar bastante. Depois, a pessoa começa a descobrir o mundo que existe.
Portal ERP: Como equilibrar governança, segurança e integração com ferramentas externas?
Gustavo Moussalli:
Quando o NetSuite usa essas ferramentas externas, ele adota o Model Context Protocol (Protocolo de Contexto de Modelo), como o Herman explicou. É um mapeamento das funções de IA para as APIs ou informações no sistema. E tudo isso segue a governança do NetSuite. Portanto, todas as funções e papéis (roles) são gerenciados. Você precisa de consentimento ao instalar esse plugin, e precisa habilitá-lo para aquele papel ou função específica.
Se eu for um analista de contas a pagar, quando estiver trabalhando no meu fechamento ou no ChatGPT, só terei acesso às informações de contas a pagar. Se eu for um agente de contas a receber, um controller ou um CEO, minha capacidade se expande em termos do que posso ver e acessar. Portanto, funciona da mesma forma que o ERP, com papéis e funções dentro do sistema e limites sobre o que pode ser visualizado.
E essa informação não é exposta externamente. Nada sai do seu ambiente; em vez disso, as ferramentas operam por cima dos seus dados privados.
Portal ERP: Então é como se ele se alimentasse sozinho, usando os seus dados e as suas planilhas?
Gustavo Moussalli:
Ele se alimenta e permanece dentro do contexto, dentro do seu ambiente. Nunca sai dali.
Portal ERP: E olhando para frente, como vocês imaginam o futuro do ERP?
Evan Goldberg:
Esses sistemas se tornarão cada vez mais autônomos e automatizados.
Eles farão muito mais coisas nos bastidores.
Em alguns momentos, o usuário trabalhará diretamente no NetSuite. Em outros, poderá interagir com assistentes ou interfaces conversacionais fora do ERP.
Isso dependerá do contexto e da preferência do usuário.
Mas a direção é clara: os sistemas vão remover fricção operacional, entregar insights no momento certo e permitir que as pessoas se concentrem mais no negócio.
Nesse sentido, o ERP tende a funcionar como um assistente empresarial inteligente.
É quase como dar a cada colaborador acesso a um excelente chief of staff.





