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CBS e IBS: por que a transição tributária também será um teste de maturidade digital

Novo modelo de tributação exigirá precisão nos dados, integração entre sistemas e maior governança das informações

Régis Lima
23 de jun. de 2026
T|Fonte:18px
5 min de leitura
CBS e IBS: por que a transição tributária também será um teste de maturidade digital

A discussão sobre a Reforma Tributária costuma concentrar atenção nas mudanças legislativas, nas novas alíquotas e nos impactos econômicos que a criação da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) trará para as empresas. Existe, porém, uma dimensão igualmente relevante e que ganha mais protagonismo à medida que a implementação avança: a capacidade tecnológica das organizações de operar em um ambiente tributário significativamente mais dependente da qualidade dos dados.

Isso porque a reforma amplia o volume de informações que precisarão circular de forma consistente entre sistemas, documentos fiscais e processos internos. Questões como integração tecnológica, governança de dados, rastreabilidade e parametrização adequada dos sistemas passam a ter influência direta sobre a conformidade tributária e a segurança jurídica das operações.

Os desafios para essa adequação já são aparentes. Uma pesquisa divulgada no final de 2025 mostrou que 72% das empresas brasileiras de médio e grande porte ainda não se consideravam preparadas para adaptar seus processos internos às novas regras de recolhimento e declaração dos tributos sobre consumo. O levantamento também indicou que 33,2% das organizações sequer haviam discutido internamente os impactos da reforma, enquanto 38,6% estavam apenas nas etapas iniciais de diagnóstico – e apenas 28,1% afirmavam possuir um plano estruturado de adaptação.

O cenário preocupa porque a lógica do IVA adotada pela reforma exige maior precisão na geração e no compartilhamento das informações fiscais. O aproveitamento adequado de créditos, a apuração correta dos tributos e a redução de riscos de questionamentos futuros dependerão da consistência dos dados registrados ao longo das operações.

E, para muitas empresas, o desafio começa antes mesmo da entrada em vigor plena do novo modelo. Ao longo dos anos, é comum que processos sejam construídos para atender demandas específicas, gerando exceções, controles paralelos e interpretações distintas entre áreas. A transição para a CBS e o IBS tende a colocar essas fragilidades em evidência. Inconsistências em cadastros, classificações fiscais inadequadas e parametrizações desatualizadas, por exemplo, poderão comprometer a confiabilidade das informações utilizadas na apuração dos tributos e ampliar a necessidade de revisões internas.

Uma oportunidade de correção estrutural

Tendo isso em vista, a fase de testes prevista para 2026 deve ser encarada como um momento estratégico para identificar fragilidades que permaneceram ocultas durante anos. Existe o risco de algumas organizações interpretarem esse período como uma etapa meramente experimental, adiando decisões importantes sob o argumento de que os efeitos financeiros mais relevantes ainda estão por vir – o que representaria uma oportunidade perdida. 

A convivência entre o sistema atual e o novo modelo permitirá que as empresas realizem simulações, validem processos e compreendam como seus sistemas respondem às exigências da CBS e do IBS. Trata-se de uma janela rara para revisar estruturas antes que eventuais erros passem a produzir consequências financeiras mais significativas.

Nesse processo, a integração tecnológica assume papel central. Os ERPs precisarão refletir corretamente as novas regras tributárias. Sistemas fiscais, plataformas de faturamento, ferramentas de gestão financeira e soluções de compliance deverão operar de forma coordenada para garantir a consistência das informações transmitidas ao Fisco.

Ao mesmo tempo, será necessário ampliar a visibilidade sobre os fluxos de dados dentro das organizações. Muitas empresas ainda trabalham com informações fragmentadas entre diferentes áreas e sistemas. Em diversos casos, a mesma informação é registrada de formas distintas ao longo da operação, aumentando o risco de inconsistências que só são percebidas quando surgem divergências em auditorias ou fiscalizações.

A preparação para a reforma oferece, além de uma oportunidade para revisar esses fluxos, a possibilidade – a partir de uma necessidade – de estabelecer padrões de governança de dados e fortalecer mecanismos de controle interno. Não se trata apenas de atender a uma exigência regulatória, mas de construir uma infraestrutura informacional mais confiável, capaz de apoiar decisões de negócio com maior segurança.

Outro aspecto relevante envolve a colaboração entre áreas. A adaptação ao novo modelo tributário não pode ser tratada como uma responsabilidade exclusiva dos departamentos fiscal, contábil ou jurídico. Tecnologia, operações, compras, vendas, financeiro e governança precisarão atuar de forma integrada para garantir que os dados produzidos ao longo da jornada empresarial mantenham coerência e qualidade.

Mais do que uma obrigação regulatória, a transição para a CBS e o IBS oferece às empresas a oportunidade de avaliar a robustez de seus processos internos e de sua infraestrutura de informações. O período de adaptação pode funcionar como um diagnóstico abrangente sobre a capacidade da organização de lidar com operações cada vez mais complexas, integradas e dependentes de dados confiáveis.

As empresas que utilizarem o período de transição para corrigir falhas estruturais, revisar processos e fortalecer sua arquitetura tecnológica estarão mais preparadas para capturar os benefícios do novo sistema e reduzir riscos futuros. Já aquelas que limitam sua preparação ao cumprimento das exigências mínimas podem descobrir, nos próximos anos, que os maiores desafios da reforma não estão nas alíquotas, mas na qualidade das informações que sustentam toda a operação tributária.

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Régis Lima
Régis LimaColunista

Diretor de Operações · Lumen IT

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